Misofonia: quando os sons mais comuns se tornam intoleráveis

Para até 1 em cada 5 pessoas, o som de alguém a mastigar, a respirar ou a bater repetidamente os dedos na mesa não é apenas incómodo — é insuportável. E a investigação mais recente está finalmente a perceber porquê.

Há quem ouça outra pessoa a comer e sinta uma vontade imediata de sair da sala. Há quem reconheça este pormenor há anos, mas nunca o tenha sabido nomear. Quem o vive em silêncio quase sempre se questiona o mesmo: “Será de mim?”

Não é. Tem nome. Chama-se misofonia — e não é falta de paciência, mau-feitio ou intolerância. É uma condição com base neurobiológica que, ainda hoje, é frequentemente confundida com tudo menos com aquilo que realmente é.

“A misofonia afecta entre 10% e 20% da população com gravidade clinicamente significativa. Os primeiros sinais surgem habitualmente entre os 9 e os 13 anos, mas a maioria das pessoas só procura ajuda em adulta, normalmente já depois dos 30.” Djalilian, Psychology Today, 2026


O que é, afinal, a misofonia?

A misofonia define-se como uma condição em que determinados sons desencadeiam reacções emocionais e fisiológicas desproporcionadamente intensas, como raiva, ansiedade ou nojo, face ao que a maioria das pessoas considera um som vulgar.

Na misofonia, a intensidade do som não é o problema. O problema é o que aquele som específico faz acontecer dentro de quem o ouve: tensão muscular, aceleração cardíaca, transpiração, vontade urgente de fugir do espaço ou, por vezes, de fazer o som parar a qualquer custo.

E há um pormenor que quase todos os clientes confirmam quando lhes pergunto: o som incomoda muito mais quando vem de um familiar próximo do que de um desconhecido. Curioso, não é?

O que se passa no cérebro

Em 2026, um grande estudo de neuroimagem trouxe uma resposta importante: as pessoas com misofonia apresentam um padrão de conectividade cerebral diferente entre as regiões auditivas e a ínsula anterior, uma estrutura central da chamada rede de saliência, responsável por decidir, em milissegundos, o que merece a nossa atenção e o que pode ser ignorado.

Quando esta rede funciona normalmente, os sons do dia-a-dia, o frigorífico a trabalhar, alguém a respirar ao lado, uma porta a fechar-se ao longe, são automaticamente filtrados. Não chegam à consciência.

Em quem tem misofonia, este filtro está desregulado. Sons que deveriam ser ignorados são marcados como importantes ou ameaçadores. E o cérebro, ao recebê-los como sinais de alerta, responde com uma cascata emocional e fisiológica perfeitamente coerente, o problema é que a coerência dele não é a coerência do contexto real.

Não é fraqueza. É o cérebro a classificar mal um som.


Quando procurar ajuda profissional

Não precisa de ter a certeza de que “é grave” para pedir apoio. Se a misofonia interfere com:

  • A relação com pessoas próximas (especialmente em casa ou ao jantar);
  • O desempenho no trabalho ou na escola, devido a sons que não consegue evitar;
  • A ida a espaços públicos, restaurantes, salas de espera, transportes;
  • O bem-estar emocional do dia-a-dia — sentimentos persistentes de raiva, isolamento, vergonha.

Então é hora de ser ouvida (literalmente) por alguém que sabe do que se trata.

O sofrimento que existe na misofonia é real e legítimo. E, hoje, com tudo o que se sabe, há muito a fazer.


A primeira consulta não compromete a nada, só serve para nos conhecermos e percebermos, juntos, o que pode fazer mais sentido para si.

Se quiser dar esse passo, pode marcar aqui a sua consulta presencial ou online.


Referências bibliográficas

Djalilian, H. (2026). Misophonia: “Will You Please Stop Making That Noise?!” Psychology Today. · Hansen, H. A., Norris, J. E., Bain, C. M., Ethridge, L. E., Tardif, C. L. (2026). Selective Disruption of Salience-Network Anterior Insula Connectivity in Misophonia: A Disorder-Specific Neural Signature. Human Brain Mapping, 47(3). · Melanthiou, D. et al. (2026). Linking misophonia and tinnitus: Common and divergent neurobiological mechanisms. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 183. · Guzick, A. G. et al. (2023). Clinical characteristics, impairment, and psychiatric morbidity in 102 youth with misophonia. Journal of Affective Disorders, 324, 395–402.


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