A criança que ainda está em ti, e o que ela ainda precisa de ouvir

Há uma menina dentro de mim que ainda hoje hesita antes de pedir ajuda. Não estou a falar em metáfora. Estou a falar a sério. Quando preciso de marcar uma consulta para mim, e sim, as psicólogas também precisam, sinto exatamente o que sentia aos sete anos quando precisava de chamar a minha mãe a meio da noite. Que vou incomodar. Que o meu desconforto não chega para justificar o incomodo do outro. E acreditem, tive pais sempre muito atentos e disponíveis.

Foi por isso que decidi escrever este texto no Dia da Criança.

A criança que ainda está em ti já não tem 6 anos

Esta criança não é a versão que aparece nas fotografias de aniversário. É uma estrutura emocional que se formou nos primeiros doze anos da tua vida, e que ainda hoje decide, neste momento, como te sentes quando alguém te diz “podemos falar?”.

Entramos em modo criança vulnerável. É a parte que guarda as emoções mais antigas, a tristeza que não pôde sair, o medo que ninguém ouviu, a vontade que não foi respondida. E continua a aparecer todos os dias da tua vida adulta, mesmo que tu não dês por isso.

A criança que ainda está em ti aparece quando o teu chefe não responde a um email durante dois dias. Quando o teu marido chega tarde e tu sentes uma raiva que sabes ser desproporcional. Quando a tua melhor amiga não te liga depois de uma semana difícil. Não é a adulta de hoje que está a reagir. É a menina de oito anos que ficou à espera que promessas fossem cumpridas, que ouviu vezes sem conta que era preguiçosa, que não sabia fazer nada ou que não sabia ler bem para participar na peça de teatro na festa de final de ano.

O que ela aprendeu e tu nunca questionaste

A criança não aprende com palavras. Aprende com padrões que se repetem.

Se cresceste num ambiente onde os adultos só perguntavam “como estás?” quando lhes sobrava tempo, a tua criança aprendeu que as necessidades dela ficavam para depois. Hoje, sem pensar, marcas a tua massagem para depois do trabalho de toda a gente.

Se foste a filha responsável, a que tomava conta dos irmãos mais novos, a que era elogiada por ser “madura para a idade”, aprendeste que ser amada passava por ser útil. Hoje, quando alguém te ama sem te pedir nada em troca, sentes um desconforto estranho que não consegues nomear.

E se cresceste com pais que se zangavam alto, ou que ficavam em silêncio durante dias, aprendeste a ler humores antes de eles chegarem à sala. Hoje, lês a cara do teu parceiro mal ele entra em casa.

Nada disto é falha tua. É inteligência adaptativa. A tua criança fez o que precisava de fazer para sobreviver emocionalmente, e fez bem.

O problema começa quando essas estratégias continuam a funcionar no automático, décadas depois de já não precisares delas.

A pergunta da minha filha que me apanhou

Há uma cena que me ficou. Estava no carro, a conduzir, com a minha filha sentada atrás. Tinha tido um dia difícil. Não estava a chorar, não estava a gritar, não estava a fazer nada de especial. Só estava calada, com a cara fechada.

Ela perguntou-me: “Mamã, porque é que estás triste se ninguém está zangado contigo?”
Reparei em duas coisas naquela pergunta. Primeira: ela viu uma coisa que eu nem tinha admitido a mim própria. Segunda: a forma como a construiu. “Porque é que estás triste se ninguém está zangado contigo?” Como se a tristeza precisasse de uma razão exterior para existir. Como se só fosse legítima se alguém me tivesse feito alguma coisa.

Não fui eu que lhe ensinei aquela frase. Veio de algures. Mas é a mesma estrutura que eu identifico e ouço em muitas consultas. “Não há razão para estar triste.” “Não me aconteceu nada de mau.” “Tantas pessoas estão pior do que eu.”

A tristeza não precisa de razão. Aparece. E o trabalho terapêutico não tem como objectivo impedir que ela apareça. O objectivo é deixá-la existir sem ter que se justificar.

Apenas respondi à minha filha “tens razão, estou triste, não sei bem porquê”.

Para as mães e pais que estão a ler

Há uma pressão silenciosa que apanha sobretudo as mulheres que se tornam mães. A sensação de que temos que estar bem para os nossos filhos estarem bem. De que se chorares, eles veem. De que se ficares triste sem razão, eles sentem.

Têm razão. Eles veem. E sentem.

Mas a investigação em vinculação é clara num ponto. O que faz mal aos filhos não é os pais terem emoções difíceis. É os pais terem emoções difíceis e fingirem que não as têm. As crianças notam a distância entre o que veem na cara dos adultos e o que lhes é dito.

A minha filha não ficou perturbada por eu lhe ter dito “tens razão, estou triste, não sei bem porquê”. Ficou tranquila. Porque o mundo dela voltou a fazer sentido. A cara que via correspondia ao que ouvia.

A criança que ainda está em ti precisa de ouvir o mesmo. Não precisa de explicações nem de razões aceitáveis. Precisa de reconhecimento. “Estás aí. Eu vejo-te. Não tens que te justificar para existires.”

Hoje, no Dia da Criança

Costuma dizer-se, neste dia, que devemos cuidar das crianças. Cuidar das crianças à nossa volta. Cuidar das crianças do mundo. Tudo isso é verdade.

Mas há uma criança que não vai aparecer em nenhuma campanha. Não tem fotografia. Não tem voz que conheças. Não é a tua filha nem a tua sobrinha. É aquela que ainda vive dentro de ti, a que aprendeu cedo demais a calar-se, a justificar-se, a esperar a sua vez.

Hoje também é o dia dela.

E o que ela precisa de ouvir não é diferente do que tu dirias a uma criança real. Que está tudo bem chorar. Que precisar não é defeito. Que pedir ajuda não é incomodar. Que existir sem razão não é exagero.

Se ler isto te trouxe alguma coisa, uma sensação, uma lembrança, uma imagem da criança que foste, fica com ela um momento. Não precisas de fazer nada. Só de a deixar estar.

Misofonia: quando os sons mais comuns se tornam intoleráveis

Para até 1 em cada 5 pessoas, o som de alguém a mastigar, a respirar ou a bater repetidamente os dedos na mesa não é apenas incómodo — é insuportável. E a investigação mais recente está finalmente a perceber porquê.

Há quem ouça outra pessoa a comer e sinta uma vontade imediata de sair da sala. Há quem reconheça este pormenor há anos, mas nunca o tenha sabido nomear. Quem o vive em silêncio quase sempre se questiona o mesmo: “Será de mim?”

Não é. Tem nome. Chama-se misofonia — e não é falta de paciência, mau-feitio ou intolerância. É uma condição com base neurobiológica que, ainda hoje, é frequentemente confundida com tudo menos com aquilo que realmente é.

“A misofonia afecta entre 10% e 20% da população com gravidade clinicamente significativa. Os primeiros sinais surgem habitualmente entre os 9 e os 13 anos, mas a maioria das pessoas só procura ajuda em adulta, normalmente já depois dos 30.” Djalilian, Psychology Today, 2026


O que é, afinal, a misofonia?

A misofonia define-se como uma condição em que determinados sons desencadeiam reacções emocionais e fisiológicas desproporcionadamente intensas, como raiva, ansiedade ou nojo, face ao que a maioria das pessoas considera um som vulgar.

Na misofonia, a intensidade do som não é o problema. O problema é o que aquele som específico faz acontecer dentro de quem o ouve: tensão muscular, aceleração cardíaca, transpiração, vontade urgente de fugir do espaço ou, por vezes, de fazer o som parar a qualquer custo.

E há um pormenor que quase todos os clientes confirmam quando lhes pergunto: o som incomoda muito mais quando vem de um familiar próximo do que de um desconhecido. Curioso, não é?

O que se passa no cérebro

Em 2026, um grande estudo de neuroimagem trouxe uma resposta importante: as pessoas com misofonia apresentam um padrão de conectividade cerebral diferente entre as regiões auditivas e a ínsula anterior, uma estrutura central da chamada rede de saliência, responsável por decidir, em milissegundos, o que merece a nossa atenção e o que pode ser ignorado.

Quando esta rede funciona normalmente, os sons do dia-a-dia, o frigorífico a trabalhar, alguém a respirar ao lado, uma porta a fechar-se ao longe, são automaticamente filtrados. Não chegam à consciência.

Em quem tem misofonia, este filtro está desregulado. Sons que deveriam ser ignorados são marcados como importantes ou ameaçadores. E o cérebro, ao recebê-los como sinais de alerta, responde com uma cascata emocional e fisiológica perfeitamente coerente, o problema é que a coerência dele não é a coerência do contexto real.

Não é fraqueza. É o cérebro a classificar mal um som.


Quando procurar ajuda profissional

Não precisa de ter a certeza de que “é grave” para pedir apoio. Se a misofonia interfere com:

  • A relação com pessoas próximas (especialmente em casa ou ao jantar);
  • O desempenho no trabalho ou na escola, devido a sons que não consegue evitar;
  • A ida a espaços públicos, restaurantes, salas de espera, transportes;
  • O bem-estar emocional do dia-a-dia — sentimentos persistentes de raiva, isolamento, vergonha.

Então é hora de ser ouvida (literalmente) por alguém que sabe do que se trata.

O sofrimento que existe na misofonia é real e legítimo. E, hoje, com tudo o que se sabe, há muito a fazer.


A primeira consulta não compromete a nada, só serve para nos conhecermos e percebermos, juntos, o que pode fazer mais sentido para si.

Se quiser dar esse passo, pode marcar aqui a sua consulta presencial ou online.


Referências bibliográficas

Djalilian, H. (2026). Misophonia: “Will You Please Stop Making That Noise?!” Psychology Today. · Hansen, H. A., Norris, J. E., Bain, C. M., Ethridge, L. E., Tardif, C. L. (2026). Selective Disruption of Salience-Network Anterior Insula Connectivity in Misophonia: A Disorder-Specific Neural Signature. Human Brain Mapping, 47(3). · Melanthiou, D. et al. (2026). Linking misophonia and tinnitus: Common and divergent neurobiological mechanisms. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 183. · Guzick, A. G. et al. (2023). Clinical characteristics, impairment, and psychiatric morbidity in 102 youth with misophonia. Journal of Affective Disorders, 324, 395–402.


Adolescentes em Portugal: Crescimento da Depressão

Individually, we are one drop. Together, we are an ocean.

Quase metade dos adolescentes portugueses apresenta sintomas depressivos. Este artigo explora o que está a acontecer, porque é que estes números cresceram e o que podem fazer as famílias para fazer a diferença.

A adolescência nunca foi fácil. É um período de mudança profunda no corpo, na identidade, nas relações, na forma de ver o mundo. Mas o que a ciência tem mostrado nas últimas décadas, e especialmente após a pandemia, é que os adolescentes de hoje estão a crescer num contexto particularmente exigente para a sua saúde mental.

Os números são difíceis de ignorar. E mais importante do que os números são as histórias que estão por detrás deles: jovens que se sentem incompreendidos, sozinhos ou sem ferramentas para lidar com o que sentem. Este artigo existe para ajudar quem os rodeia, pais, cuidadores, educadores, a perceber melhor o que se passa e o que pode fazer a diferença.

“A depressão é a 9.ª causa de doença e incapacidade entre os adolescentes a nível mundial. A ansiedade é a 8.ª. E o suicídio é a terceira principal causa de morte entre os jovens de 15 a 19 anos.”
— Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS)

O que os dados nos dizem

Portugal não é exceção à tendência global. Os números são claros e consistentes ao longo dos últimos anos:

Nem sempre é fácil distinguir o que é desenvolvimento normal da adolescência daquilo que é sofrimento que precisa de atenção. Mas há sinais que, quando persistem ou se intensificam, merecem que paremos e escutemos.

Quando é chegada a hora de procurar ajuda profissional

Não precisa de ter a certeza de que “é grave” para procurar apoio. Se algo não está bem, essa intuição merece ser levada a sério. Alguns sinais que indicam que a intervenção profissional é importante:

Os sintomas persistem há mais de duas semanas. O comportamento mudou de forma significativa e inexplicável. O jovem expressa pensamentos de autolesão ou de que “não quer estar aqui”. A família já não consegue comunicar sem conflito constante. O rendimento escolar caiu de forma abrupta.

O apoio psicológico na adolescência é um investimento de longo prazo. Um jovem que aprende a conhecer as suas emoções, a pedir ajuda e a construir relações saudáveis terá essas ferramentas para a vida toda.

A conversa inicial não compromete e pode fazer toda a diferença.

Referências Bibliográficas

OPAS/OMS — Saúde mental dos adolescentes; Programa Mais Contigo / Escola Superior de Enfermagem de Coimbra (2023); Instituto de Saúde e Desenvolvimento da Criança — Coordenação Nacional de Saúde Mental (SNS Portugal); Institute for Health Metrics and Evaluation (2019); Relatório OCDE Health at a Glance; Estudo Nacional de Saúde Marktest/Medicare (2025); CUF — Saúde mental infantil: sinais de alerta e quando intervir.